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#AGORAVCSABE: POR QUE É TÃO IMPORTANTE TIRAR A VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES DA INVISIBILIDADE?

Por Luciana Temer

Muitas são as questões a serem enfrentadas em um país com os níveis de desigualdade e vulnerabilidade sociais como o nosso e, entre elas, sem dúvida, a questão da violência contra a mulher se apresenta. Infelizmente, ainda somos uma sociedade extremamente violadora dos direitos das mulheres, mas, hoje, temos consciência disso e buscamos reunir forças e recursos para mudar esse quadro. Esta Coalizão de Empresas é prova viva dessa soma de esforços, que envolve governos, empresas e sociedade civil. Importante lembrar duas coisas: que essa mobilização só foi possível a partir do momento em que a sociedade enxergou a dimensão e consequências dessa violência; e que este "enxergar" não foi um processo espontâneo, mas provocado por milhares de mulheres, movimentos e organizações feministas que conseguiram colocar o tema na pauta. A violência persiste, mas está sendo enfrentada.


O Instituto Liberta, assim como tantos outros, está tentando fazer com que a questão da violência sexual contra crianças e adolescentes passe pelo mesmo processo que passou a violência contra mulheres, ou seja, saia da invisibilidade. Você tem dúvidas de que este problema seja invisível? Vamos lá: quem é a maior vítima de violência sexual no Brasil? Mulheres? Errado! São meninas de menos de 13 anos. 60,6% de todos os estupros registrados em 2020 foram contra menores de 13 anos, o que significa mais de 4 meninas estupradas por hora. 67% das violências aconteceram dentro da residência e 86% praticadas por pessoas próximas, normalmente relações intrafamiliares. Isso porque estima-se que apenas 10% dos casos sejam denunciados. Há cinco anos trabalhando com essa temática, posso afirmar com segurança que quase ninguém tem consciência disso. Sem visibilidade do problema, não criamos consciência social nem engajamento para enfrentamento deste crime.


Exagero? Dá um Google, aliás, dois. O primeiro com o termo de busca "empresas engajadas no combate à violência contra mulher", e o segundo com "empresas engajadas no combate à violência sexual contra crianças e adolescentes", e veja o resultado.


Foi para fazer barulho e chamar a atenção das pessoas que lançamos a primeira passeata virtual do mundo, o levante #AGORAVCSABE, que convida pessoas de mais de 18 anos a entrarem no site www.agoravcsabe.com.br, identificarem se foram vítimas de alguma violência sexual na infância ou adolescência (sim, porque a violência sexual pode ter acontecido mesmo sem ter havido toque e as pessoas não sabem disso) e gravarem o grito da passeata: Violência sexual contra crianças e adolescentes é uma realidade. Eu fui vítima. E agora você sabe. E, com essas frases gravadas, saírem conosco numa das etapas da nossa passeata virtual. A primeira foi no dia 18/05, a segunda em 14/06 e haverá outras duas, em julho e agosto.


Ninguém tem que contar a sua história ou dizer o seu nome, mas emprestar seu rosto e voz para que a força do coletivo possa tirar essa violência da invisibilidade e, com isso, ajudar a mudar essa realidade. Queremos que esta seja a última geração que se calou sobre uma violência vivida na infância ou adolescência. Nenhuma pessoa deve se envergonhar de ter sido vítima de violência sexual na infância ou adolescência, nem deve se calar, porque o silêncio é que permite a perpetuação desses crimes. Só a partir do momento em que encararmos o problema de frente é que teremos, de verdade, seu enfrentamento.


E sabe no que acreditamos? Em políticas de prevenção. No papel da escola, pública e privada, neste processo de proteção de crianças e de construção de uma sexualidade saudável com adolescentes. Sempre estive de alguma forma conectada ao enfrentamento da violência contra a mulher, mas hoje, quando penso na relação desta violência com a violência sexual infantil, me vem aquela história das crianças que caíam do alto da cachoeira. Conhece? Então... duas pessoas estavam em uma corredeira e começaram a ver crianças que caíam do alto da cachoeira com o risco de se afogarem. Ambos começaram a nadar e salvar as crianças, uma a uma, desesperadamente. Até que uma das pessoas sai da água e a que fica pergunta, indignada: Para onde você vai? Desistiu de salvá-las? Ao que a outra responde: Não, mas alguém precisa ver o que está acontecendo lá em cima! Pois é... está na hora de alguém evitar que elas caiam...


Luciana Temer é advogada, professora de Direito na PUCSP e presidente do Instituto Liberta



Saiba mais
Acesse www.agoravcsabe.com.br e siga a página oficial do Instituto Liberta no Instagram - @institutoliberta - para mais informações sobre a passeata virtual e a programação completa, com novas datas previstas para julho e agosto.







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Para ter mais informações sobre a Coalizão Empresarial pelo Fim da Violência contra Mulheres e Meninas, envie um e-mail para coalizaoempresarial@avon.com ou preencha os campos abaixo. Em breve, entraremos em contato.

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